Fazendo as pazes com a menstruação

Tenho acompanhado o trabalho de uma fisioterapêuta que trabalha em São Paulo. Ela se chama Roberta Struzani. Ela se especializou em saúde da mulher e publica textos muito interessantes em suas home pages.

Adaptei um texto dela, colocando-o na terceira pessoa, de forma que homens e mulheres possam entender o que se passa no organismo feminino durante o ciclo menstrual.

Espero que gostem.

Dr. Paulo de Tarso Amorim

Fazendo as pazes com a menstruação

Período pode ser ideal para trabalhar autoconhecimento e emoções

Hoje em dia muitas mulheres costumam se queixar quando menstruam. Algumas não gostam do cheiro, outras reclamam da “sujeira” nas roupas, enquanto a maioria fica incomodada com as cólicas e os sintomas da TPM, como as alterações de humor, por exemplo. Para muita gente a menstruação só oferece alívio ao sinalizar que a pessoa não está grávida.

Mas os símbolos de poder de uma mulher estão justamente ligados ao fato dela sangrar todo mês, durante alguns dias, e não morrer, além de poder dar à luz e produzir o alimento do seu próprio filho. Tudo isso está relacionado aos seus ciclos femininos, ou seja, à menstruação.

No entanto, a cultura contemporânea muitas vezes impede as mulheres de se verem como sagradas, de terem orgulho de seu gênero. Por conta disso, deixam de observar os valores do feminino, além de aceitar e amar os seus ciclos. Mas é importante entender que fazer as pazes com a menstruação é se aceitar como mulher.

As vantagens da menstruação

Energeticamente falando, as mulheres têm o instinto maternal nato, com capacidade para captar e colher todas as “energias ruins” das pessoas, curando todos que as rodeiam. Obviamente isso ocorre de forma inconsciente e é registrado e guardado como memória celular, que pode gerar posteriormente uma sobrecarga negativa e, em alguns casos, evoluir para uma possível doença.

Muitos profissionais hoje defendem essa teoria, chamada de linguagem corporal, como nos estudos do filósofo Wilhelm Reich. Essa teoria sugere que algumas emoções e sobrecargas externas podem ser guardadas em determinadas partes do corpo. Mas o organismo feminino se adaptou à essa tendência de cuidar dos demais e captar as energias alheias, dando-as o privilégio de esvaziar o útero todo mês, por meio da menstruação. Ou seja, o corpo feminino honra os ciclos da vida e sabe – assim como a lua – esvaziar-se e tornar-se cheio e pleno, para depois esvaziar-se novamente.

A menstruação não tem o único intuito de preparar o organismo feminino para uma possível gravidez. Mais do que isso, também trabalha a limpeza de suas emoções, como rancores, tristezas, decepções, inseguranças e medos.

 E é por isso que a mulher passa muitas vezes pela TPM, pois essa é uma forma do corpo mostrar quais sentimentos ela está guardando, além de aspectos mais sombrios de sua psiquês.

Para amenizar os sintomas da TPM, é necessário que a mulher abra os olhos e aprenda a se enxergar. O ideal é aproveitar a fase do ciclo menstrual para introspecção e reconhecimento de suas próprias sombras. Apesar de ficar mais fragilizada e suscetível durante esse período, também é durante a menstruação que a mulher tende a ficar mais intuitiva e com seu poder curativo mais apurado.

Como já diziam os antigos xamãs, durante a menstruação, a atividade do hemisfério cerebral direito aumenta. Com isso, a mulher passa a ter estímulos cerebrais semelhantes aos dos animais quando agem por instinto, que nada mais é do que a sua intuição atuando.

Através da aceitação e do entendimento dos ciclos menstruais, assim como da compreensão dos sentimentos entrelaçados a esses ciclos, a mulher pode resolver problemas psicológicos e traumas, e se conhecer melhor. Com isso, ganha mais autoestima, confiança nos relacionamentos e até poderá amenizar cólicas e sintomas da TPM. Como esses sintomas são gerados pelos estímulos hormonais, a partir do momento que as emoções são balanceadas, os hormônios também passam a ser normalizados. Isso significa que não somente os hormônios influenciam as emoções, mas as emoções também afetam os hormônios.

Ciclos femininos sugerem emoções e comportamentos

As mulheres tendem a seguir um padrão lógico de humor em um ciclo que dura normalmente 28 dias, e que se adapta a cada tipo de personalidade.  Geralmente nos 14 dias após a menstruação, ou seja, na fase ovulatória ou período fértil, ela vive uma fase de entusiasmo, alegria, charme, aumento da libido, mais disposição e melhor produção no trabalho. Isso ocorre por conta do aumento de estrogênio – hormônio feminino que aumenta, durante esta fase, a atividade do hemisfério cerebral esquerdo, que por sua vez melhora a fluidez verbal e o pensamento lógico.

Após os 14 dias do período fértil inicia-se a fase lútea – momento que o útero começa a descamar tudo o que havia preparado para chegada de um possível desenvolvimento fetal. Esse é o momento que o hemisfério cerebral direito entra em maior atividade, inibindo a simpatia e a extroversão que a mulher apresentava na fase ovulatória. Agora é o momento de introversão, intuição e da famosa TPM. Ou seja, a fase é ideal para a autodescoberta, indicada para avaliar e entender o que incomoda, irrita e não serve mais no dia a dia. É uma fase de ouro para a mulher limpar e exterminar essas situações junto com a menstruação.

O que significa uma menstruação desregulada?

Seguindo o entendimento sobre os ciclos físicos e emocionais femininos, fica fácil entender porque uma mulher tem um ciclo menstrual desregulado. A grande maioria apresenta essa disfunção por conta da falta de conexão consigo mesma. Em alguns casos, um ciclo desregulado demonstra que a pessoa se adapta mais ao mundo externo – de tendências, moda, amigos e trabalho – do que ao mundo interno, que permite a autoexpressão com liberdade e sem medo de julgamentos.

Portanto, o primeiro passo para ajudar o ciclo menstrual a entrar nos eixos é tomar o caminho inverso, ou seja, da mulher se observar mais e procurar entrar em contato com seu mundo interior. Isso pode ser feito, por exemplo, escutando uma música, refletindo sobre a vida, tomando um banho renovador, ficando mais tempo sozinha e conversando consigo mesma, se amando ou se presenteando mais com a sua presença.

Os ciclos femininos também ocorrem durante a menopausa

Na menopausa a mulher não tem o sinal da menstruação para apontar em qual fase do ciclo se encontra. No entanto, os ciclos emocionais e a fase de limpeza continuam iguais. É preciso atenção para identificar o que seria seu momento fértil – que estimula um comportamento mais extrovertido, alto astral, comunicativo e criativo. 14 dias depois desta fase ocorre o momento de limpeza – que induz à introspecção e possíveis sintomas mais rudes, como estresse e ações explosivas.

É muito importante a mulher se observar e descobrir quando exatamente começará um ciclo e terminará outro. Dessa forma será possível para ela constatar quais determinadas atitudes não são características pessoais, mas sim a representação de um momento de fragilidade e intolerância. Durante essas fases, por exemplo, a mulher ainda poderá pautar decisões, tomando o cuidado de não agir de forma radical quando sabe que viverá uma fase propícia a mudanças de humor. Por outro lado, poderá se programar para iniciar algo novo, fazer uma reunião ou marcar um encontro amoroso no seu período fértil.

Anticoncepcionais e os ciclos menstruais

As mulheres que usam anticoncepcionais, como a pílula, o anel vaginal e os adesivos contraceptivos – que possuem hormônios sintéticos – não podem se beneficiar desse parâmetro de autoconhecimento, pois elas não menstruam “de verdade”. O que ocorre, nesses casos, é o que chamamos de “sangramento por deprivação”, que acontece no intervalo de uma semana entre as cartelas de pílula.

Essas mulheres tendem a adotar posturas e reações que não são próprias de sua personalidade. Por exemplo: se a pessoa tende a ser calma diante de conflitos, pode repentinamente adotar posturas mais rudes. Assim como o oposto também pode ocorrer, ou seja, uma mulher que traz consigo características de liderança e segurança pode passar a ficar mais insegura e confusa ao lidar com o público ou diante de situações inesperadas.

Isso acontece porque os hormônios agem diretamente em suas emoções e na maneira como lida com a vida. Se o corpo recebe hormônios dos quais não tem controle, ele busca uma forma de se readaptar ao seu ritmo natural – refletindo diretamente nas suas emoções. Apesar de nem toda mulher demonstrar de forma muito clara essas alterações hormonais, em todo caso é bom ela ficar alerta no que diz respeito a mudanças comportamentais. Afinal, ninguém conhece a personalidade da mulher de forma tão fidedigna como ela mesma.

Vale reforçar que o uso de métodos contraceptivos é de extrema importância para impedir a gravidez ou as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). A camisinha, por exemplo, pode ser usada em substituição dos anticoncepcionais de hormônio sintético. Mas é importante consultar um ginecologista para buscar indicações do método contraceptivo mais indicado para cada caso, além de deixar a mulher bem informada sobre as interferências que estes hormônios podem estar causando em seu organismo.

Equilíbrio emocional e consciência limpa

É bem coerente para a mulher evitar tudo que não for natural ao seu corpo, como o anticoncepcional, mas lembrando-se de utilizar a camisinha como meio contraceptivo e para evitar uma possível DST. Ter o contato direto com o seu sangue menstrual também faz com que a mulher tenha automaticamente uma ligação maior consigo mesma, se relacionando com todos seus aspectos e se observando mais – sem nojo de si. Há quem acredite que o uso e a ação de jogar os absorventes descartáveis no lixo reflete o desprezo de nossa cultura pelos ciclos femininos.

Mesmo que a idéia pareça radical, substituir os absorventes também pode simbolizar uma forma de poluir menos o ambiente e gastar menos dinheiro. Além disso, esses produtos feitos de materiais sintéticos podem causar alergia em algumas mulheres. Nesse sentido, uma boa opção pode ser o uso do coletor menstrual – que é um copo de silicone medicinal hipoalérgico e antibacteriano, ajustável ao corpo, que coleta o sangue da menstruação sem deixar vazar. O material não é descartável e só precisa ser lavado a cada doze horas de uso.

Outra opção, como nossas bisavós faziam, é depositar o sangue do coletor menstrual de volta para a terra com plantas, fazendo com que as células que morrem em seu útero sejam transportadas como adubo rico em ferro e nutrientes para a terra.

Entender os ciclos femininos pode ajudar a mulher a se conhecer melhor. Aguçando a percepção das emoções em cada fase, a mulher passará a notar que é uma mulher de inúmeras personalidades. Quando passa a entender melhor tudo isso e a aceitar seus ciclos, o corpo feminino refletirá essa mudança – seja amenizando os sintomas de cólica e de TPM, ou proporcionando que a mulher viva de uma forma mais verdadeira, agindo pelos próprios instintos. Busque sua verdadeira identidade. Isso lhe trará cada vez mais paz interior.

Sobre a autora

 Roberta

Roberta Struzani

http://odespertardofeminino.blogspot.com.br/

http://www.personare.com.br/roberta-struzani-55

Fisioterapeuta, pós- graduada em Ginecologia, Obstetricia e Mastologia. Especializou-se em sexualidade, saúde da mulher e atividades físicas para gestantes.